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Quando a fome é urgente, a resposta precisa ser humana: um posicionamento sobre o debate público em torno da população em situação de rua

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Nos últimos tempos, o tema da população em situação de rua voltou ao centro do debate público no Rio de Janeiro. Entre as vozes que têm se destacado está a da vereadora Talita Galhardo, cujas declarações e ações têm gerado repercussão e provocado reflexões importantes sobre qual deve ser o papel do poder público — e da sociedade — diante da fome e da vulnerabilidade social.

Este artigo não nasce do confronto, mas da responsabilidade. Como organização que atua diariamente no combate à fome, a ONG É Por Amor entende que o diálogo precisa ser firme, técnico e, acima de tudo, humano.

A crítica à distribuição de alimentos: um ponto de divergência

Um dos posicionamentos mais debatidos da vereadora foi sua crítica à distribuição de alimentos diretamente nas ruas. Segundo sua linha de argumentação, iniciativas como a entrega de quentinhas poderiam contribuir para a permanência das pessoas em situação de rua, dificultando seu encaminhamento para abrigos ou políticas públicas estruturadas.

Esse tipo de visão parte de uma lógica compreensível sob a ótica da gestão pública: a de que soluções definitivas exigem institucionalização, acompanhamento e reinserção social. No entanto, ela ignora — ou subestima — uma dimensão fundamental da realidade: a urgência da fome.

A fome não espera políticas públicas amadurecerem. Ela não aguarda vagas em abrigos, nem a reorganização de fluxos institucionais. A fome é imediata, concreta e diária.

Negar alimento sob o argumento de que isso pode “manter alguém na rua” é, na prática, condicionar a dignidade à aceitação de um sistema que muitas vezes falha em acolher.

Ordem urbana versus dignidade humana

Outro eixo recorrente nas falas da vereadora é a associação da população em situação de rua a questões de ordem urbana: ocupação de espaços públicos, segurança e irregularidades.

É legítimo que o poder público se preocupe com a organização da cidade. No entanto, há um risco quando essa preocupação se sobrepõe à dimensão humana do problema.

Pessoas em situação de rua não são um problema urbano a ser removido. São cidadãos que, por diferentes razões — desemprego, ruptura familiar, saúde mental, dependência química — chegaram a uma condição extrema de vulnerabilidade.

Quando o foco se desloca da pessoa para o espaço que ela ocupa, corre-se o risco de desumanizar o debate.

Abordagens diretas e a linha tênue do respeito

As ações diretas da vereadora nas ruas, abordando pessoas em situação de rua e questionando sua permanência em determinados locais, também geraram críticas.

Embora a intenção de compreender ou encaminhar possa existir, a forma importa. A dignidade não pode ser negociada em abordagens públicas, muito menos diante de câmeras.

A escuta qualificada, o acolhimento e a construção de vínculo são pilares fundamentais de qualquer política eficaz voltada a essa população. Sem isso, qualquer tentativa de solução tende a ser superficial.

A ideia de “escolha” e a complexidade da realidade

Outro ponto sensível nas falas atribuídas à vereadora é a sugestão de que algumas pessoas “escolhem” permanecer na rua.

Essa afirmação simplifica uma realidade profundamente complexa.

A permanência na rua raramente é uma escolha livre. Ela é, na maioria das vezes, o resultado de um acúmulo de vulnerabilidades: ausência de rede de apoio, traumas, transtornos mentais, dependência química e falhas sucessivas do sistema de proteção social.

Reduzir essa condição a uma escolha individual não apenas distorce o problema, como dificulta a construção de soluções eficazes.

O papel da sociedade civil: complementar, não concorrente

É fundamental compreender que iniciativas como a da ONG É Por Amor não competem com o poder público — elas complementam.

A distribuição de alimentos não substitui políticas estruturantes. Ela responde a uma lacuna imediata.

Ao oferecer um prato de comida, não estamos incentivando a permanência na rua. Estamos afirmando algo muito mais básico: ninguém deve passar fome.

Além disso, a atuação direta nas ruas permite algo que muitas vezes o sistema não consegue oferecer com a mesma eficácia: a construção de vínculo. E é esse vínculo que, em muitos casos, abre portas para encaminhamentos futuros.

Caminhos possíveis: integração, não oposição

O debate não precisa — e não deve — ser polarizado.

Existe espaço para uma abordagem integrada, que una:

  • A atuação emergencial da sociedade civil
  • Políticas públicas estruturadas de acolhimento
  • Programas de saúde mental e tratamento de dependência
  • Estratégias de reinserção social e geração de renda

A fome e a situação de rua são problemas complexos demais para soluções simplistas.

Um convite ao diálogo

Este não é um texto de ataque. É um convite.

Um convite para que possamos construir pontes entre diferentes visões. Para que possamos reconhecer que, antes de qualquer debate ideológico, existe uma realidade que precisa ser enfrentada com urgência, responsabilidade e humanidade.

A ONG É Por Amor seguirá fazendo o que acredita ser inegociável: combater a fome todos os dias.

Porque, enquanto discutimos caminhos, há pessoas que precisam comer hoje.

E isso não pode esperar.


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