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Mais do que Novo ou Usado: O Que Realmente Está em Jogo na Doação de Roupas Íntimas

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Nos últimos dias, um debate tomou conta das redes sociais: a doação de roupas íntimas usadas para pessoas em situação de vulnerabilidade.

A reação foi imediata. Muitas pessoas disseram que “ninguém merece receber isso”, mesmo quando as peças passam por higienização rigorosa.

O desconforto é compreensível.

Roupas íntimas carregam um significado diferente. São peças pessoais, ligadas à higiene, ao corpo e à intimidade. Para quem nunca viveu a falta, a ideia de usar algo assim pode parecer inaceitável.

Mas existe uma pergunta essencial que precisa ser feita: estamos falando da realidade de quem doa — ou de quem recebe?

Na prática, nas ações sociais, o cenário é muito mais duro do que parece.

Encontramos mulheres que não têm acesso ao básico. Mulheres que não possuem peças suficientes para troca. E, em muitos casos, mulheres que simplesmente não têm nenhuma calcinha.

Isso aparece de forma clara em algo cotidiano: quando distribuímos absorventes, muitas dizem que não têm onde usá-los, porque estão sem calcinha.

Essa é uma realidade invisível para grande parte da sociedade.

Além disso, existe um outro fator que raramente é considerado: não é apenas sobre ter — é sobre conseguir manter.

Muitas dessas mulheres não têm onde guardar seus pertences. Não têm um local seguro, não têm uma mochila, não têm estrutura mínima.

Mesmo quando possuem alguma peça, às vezes é só aquela.

Não por escolha, mas porque não têm espaço para guardar, não têm como carregar peso nas costas e vivem em constante deslocamento.

Ou seja, falar em “ter várias opções” simplesmente não faz sentido dentro dessa realidade.

Diante disso, o debate sobre doar ou não roupas íntimas usadas precisa ser ampliado.

O ideal é claro: todas as pessoas deveriam ter acesso a peças novas, em quantidade suficiente, com dignidade garantida.

Mas entre o ideal e a realidade existe um abismo e é nesse espaço que muitas ações sociais acontecem.

Para quem está na ponta, a escolha muitas vezes não é entre “novo ou usado”.

É entre ter ou não ter.

E quando uma peça chega limpa, em bom estado e com cuidado, ela não é vista como descarte.

Ela é vista como acesso.

Isso não significa ignorar o debate sobre dignidade.

Pelo contrário.

Significa entender que dignidade também está no contexto. Está no cuidado com a entrega. No respeito com quem recebe. Na intenção de ajudar de forma real.

Outro ponto importante envolve o papel das empresas.

Marcas têm capacidade de produzir e doar peças novas, ainda mais quando esse é o próprio produto que fabricam. Por isso, é legítimo que exista uma expectativa maior sobre suas ações.

O caminho mais equilibrado talvez não seja escolher entre um modelo ou outro, mas somar esforços: reduzir o desperdício e ampliar o acesso com doações de itens novos.

Mas, acima de tudo, esse debate revela algo maior.

Existe um distanciamento entre a percepção de quem observa de fora e a realidade de quem vive a vulnerabilidade.

Muitas opiniões são construídas a partir de um lugar onde o básico já está garantido. E isso muda completamente a forma de enxergar o que é aceitável ou não.

Na prática, o que deveria orientar qualquer ação social é simples: ouvir quem recebe.

E, quando escutamos de verdade, entendemos que a realidade não cabe em julgamentos absolutos.

O que para alguns é impensável, para outros é necessário.

O que para alguns parece falta de dignidade, para outros pode ser um pequeno avanço dentro de uma vida marcada pela escassez.

A dignidade, no fim, não está apenas no que é novo, está no cuidado, no respeito.

E na disposição de enxergar a realidade como ela é — não como gostaríamos que fosse.


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