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A Desigualdade Entre as ONGs: O Silêncio que Mantém a Injustiça

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Quando falamos em desigualdade social, geralmente pensamos na distância entre ricos e pobres, no acesso desigual à educação, à saúde ou às oportunidades de trabalho. No entanto, existe uma forma de desigualdade pouco discutida, mas que afeta diretamente a capacidade de milhares de organizações transformarem vidas: a desigualdade entre as próprias ONGs.

Enquanto algumas instituições contam com equipes estruturadas, departamentos de captação, acesso a grandes financiadores e forte visibilidade na mídia, milhares de organizações comunitárias sobrevivem com recursos extremamente limitados, sustentadas pelo esforço de poucos voluntários e por pequenas doações.

Essa realidade raramente aparece nos debates públicos. E justamente por permanecer quase invisível, continua reproduzindo injustiças dentro de um setor que existe para combatê-las.

Nem todas as ONGs partem do mesmo ponto

Existe uma tendência de enxergar o terceiro setor como um conjunto homogêneo de organizações com condições semelhantes de atuação.

Mas a realidade é muito diferente.

No Brasil, convivem organizações de perfis extremamente distintos.

De um lado, instituições consolidadas, algumas com décadas de existência, estruturas profissionais, equipes especializadas, acesso a consultorias, departamentos jurídicos, profissionais de comunicação e facilidade para captar recursos nacionais e internacionais.

Do outro, organizações comunitárias que atuam diretamente nos territórios mais vulneráveis, muitas vezes criadas por moradores das próprias comunidades, que conhecem profundamente os problemas locais, mas possuem pouca estrutura administrativa e financeira.

Não se trata de uma disputa entre organizações grandes e pequenas.

Ambas desempenham papéis importantes.

O problema surge quando o acesso aos recursos se concentra de forma tão desigual que milhares de iniciativas locais ficam impedidas de alcançar todo o seu potencial.

Quem está mais próximo do problema nem sempre recebe mais apoio

Existe uma contradição frequente no setor social.

As organizações que estão mais próximas das populações vulneráveis nem sempre são as que recebem mais investimentos.

Muitas vezes, uma pequena ONG comunitária conhece pelo nome as famílias que atende, acompanha situações de vulnerabilidade há anos e possui uma relação de confiança construída dentro do território.

Ainda assim, enfrenta dificuldades para acessar editais, patrocinadores e grandes financiadores.

Enquanto isso, organizações maiores, que possuem mais capacidade técnica para elaborar projetos, relatórios e estratégias de comunicação, tendem a captar recursos com maior facilidade.

Não há nada de errado em possuir estrutura profissional.

Pelo contrário.

A profissionalização é necessária.

O problema está no fato de que a capacidade de escrever um projeto muitas vezes recebe mais atenção do que a capacidade de gerar impacto real na ponta.

O custo invisível da burocracia

Nos últimos anos, financiadores passaram a exigir níveis cada vez maiores de governança, transparência e prestação de contas.

Essa evolução trouxe avanços importantes para o setor.

Transparência é fundamental.

Prestação de contas é indispensável.

Boa gestão fortalece a credibilidade das organizações.

Mas existe um efeito colateral pouco discutido.

Quanto mais complexas se tornam as exigências administrativas, mais difícil fica para pequenas organizações acessarem recursos.

Muitas vezes, uma ONG comunitária precisa escolher entre dedicar seu tempo ao atendimento das pessoas vulneráveis ou preencher formulários, produzir relatórios extensos e cumprir exigências burocráticas para participar de editais.

O resultado é que organizações que já possuem estrutura conseguem crescer ainda mais, enquanto organizações menores permanecem estagnadas.

A concentração dos recursos sociais

Diversos estudos sobre filantropia mostram que uma parcela significativa dos investimentos sociais privados tende a se concentrar em organizações já conhecidas e consolidadas.

Esse comportamento é compreensível.

Grandes financiadores naturalmente procuram reduzir riscos.

Investir em uma instituição já reconhecida parece mais seguro.

No entanto, essa lógica pode gerar um círculo vicioso.

Organizações que já possuem recursos conseguem ampliar sua visibilidade.

Maior visibilidade atrai mais financiadores.

Mais financiadores geram mais crescimento.

Enquanto isso, organizações menores permanecem invisíveis, mesmo quando realizam trabalhos extremamente relevantes.

O resultado é uma concentração de oportunidades dentro de um setor que deveria promover inclusão.

Quando a visibilidade vale mais que o impacto

Vivemos em uma era fortemente influenciada pela comunicação digital.

Redes sociais, vídeos, campanhas e estratégias de marketing passaram a ocupar um papel importante na captação de recursos.

Isso trouxe benefícios significativos para o terceiro setor.

Mas também criou novos desafios.

Nem sempre a organização que mais aparece é a que mais transforma.

Nem sempre a organização que produz o conteúdo mais sofisticado é a que possui maior impacto social.

Em muitos casos, instituições comunitárias realizam trabalhos extraordinários sem possuir profissionais de comunicação, designers ou especialistas em marketing.

A consequência é que projetos transformadores podem permanecer desconhecidos simplesmente porque não possuem recursos para contar suas histórias.

O risco de reproduzir desigualdades

O terceiro setor existe para enfrentar problemas sociais.

Mas isso não significa que esteja imune às desigualdades presentes na sociedade.

Quando recursos, oportunidades e visibilidade se concentram continuamente nos mesmos atores, corre-se o risco de reproduzir internamente os mesmos mecanismos de exclusão que se busca combater externamente.

A desigualdade entre organizações não é apenas um problema institucional.

Ela afeta diretamente as pessoas atendidas.

Quando uma ONG deixa de receber apoio, famílias deixam de ser atendidas.

Quando um projeto comunitário fecha as portas, oportunidades desaparecem.

Quando uma iniciativa local não consegue crescer, comunidades inteiras podem perder acesso a serviços essenciais.

Fortalecer as pequenas organizações fortalece os territórios

As organizações comunitárias costumam possuir algo que não pode ser facilmente construído por meio de recursos financeiros: legitimidade local.

Elas conhecem as lideranças.

Conhecem as famílias.

Conhecem os desafios específicos do território.

Conhecem as soluções que funcionam.

Por isso, fortalecer organizações locais não significa enfraquecer as grandes instituições.

Significa ampliar a capacidade de resposta do setor como um todo.

Uma sociedade mais justa precisa de organizações fortes em todos os níveis.

Precisa tanto de grandes instituições nacionais quanto de pequenas iniciativas de bairro.

Precisa de escala e de proximidade.

Precisa de gestão profissional e de conhecimento comunitário.

O papel dos financiadores

Empresas, fundações e investidores sociais podem desempenhar um papel fundamental na redução dessa desigualdade.

Algumas medidas podem gerar grande impacto:

  • Criar editais acessíveis a pequenas organizações;
  • Simplificar processos burocráticos;
  • Financiar custos operacionais e não apenas projetos;
  • Investir em capacitação institucional;
  • Apoiar redes colaborativas entre organizações;
  • Valorizar o conhecimento territorial das iniciativas comunitárias.

A transformação social exige mais do que financiar ações.

Exige fortalecer quem está realizando essas ações.

Colaboração em vez de competição

Outro desafio importante é a cultura de competição que, em alguns momentos, se instala no terceiro setor.

Recursos limitados podem levar organizações a enxergarem umas às outras como concorrentes.

Mas os problemas sociais são grandes demais para serem enfrentados isoladamente.

A fome não escolhe qual ONG irá combatê-la.

A pobreza não respeita fronteiras institucionais.

A exclusão social não distingue logotipos.

Quanto maior for a capacidade de cooperação entre organizações, maiores serão as chances de gerar transformações duradouras.

Conclusão

A desigualdade entre as ONGs é um tema que raramente ocupa espaço nos debates públicos, mas influencia diretamente a capacidade de milhares de organizações cumprirem sua missão.

Não se trata de questionar o sucesso das instituições maiores ou mais estruturadas.

Trata-se de reconhecer que muitas organizações comunitárias permanecem invisíveis não por falta de impacto, mas por falta de oportunidades.

Se queremos construir uma sociedade mais justa, precisamos também construir um terceiro setor mais equilibrado, onde recursos, visibilidade e oportunidades possam alcançar quem está na linha de frente das transformações sociais.

Porque quando uma organização comunitária cresce, não é apenas ela que se fortalece.

Fortalecem-se as famílias que ela atende.

Fortalece-se o território onde atua.

E fortalece-se a própria capacidade da sociedade de enfrentar seus maiores desafios.

Fontes

  • Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) – Panorama da Filantropia e do Investimento Social Privado no Brasil.
  • GIFE – Grupo de Institutos, Fundações e Empresas.
  • Mapa das Organizações da Sociedade Civil (IPEA).
  • Pesquisa Doação Brasil (IDIS).
  • Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil – Lei nº 13.019/2014.
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