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A solidariedade não tem partido: quando a polarização política ameaça o trabalho das ONGs

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Em um país marcado por profundas desigualdades sociais, transformar a solidariedade em uma disputa ideológica pode trazer consequências para quem mais precisa de apoio. A sociedade civil precisa continuar sendo um espaço de encontro, não de divisão.

Quando a política começa a interferir na solidariedade

O Brasil vive um período de intensa polarização política. Divergências que antes faziam parte do debate público passaram, em muitos ambientes, a influenciar relações pessoais, decisões comerciais e até iniciativas de solidariedade.

Nesse cenário, chama a atenção uma preocupação crescente: a possibilidade de empresas e cidadãos deixarem de apoiar organizações não governamentais por associarem suas atividades a determinadas correntes ideológicas.

Para algumas pessoas, defender direitos sociais, combater a pobreza ou atuar junto a populações vulneráveis passou a ser interpretado como sinal de alinhamento político à esquerda. Para outras, organizações ligadas a instituições religiosas, empresários ou grupos conservadores podem despertar desconfiança semelhante.

Mas será que combater a fome, acolher pessoas em situação de rua, cuidar de idosos ou oferecer oportunidades a crianças deveria ser interpretado como uma posição partidária?

A resposta exige uma reflexão que ultrapassa as diferenças entre direita e esquerda.

A solidariedade não deveria ser propriedade de nenhuma corrente política. E a necessidade de quem recebe ajuda não muda conforme suas convicções eleitorais.

Combater a desigualdade não significa pertencer à esquerda

Existe uma confusão que merece ser esclarecida.

Historicamente, movimentos de diferentes orientações políticas, religiosas e filosóficas contribuíram para a construção de iniciativas sociais.

Organizações religiosas desenvolvem trabalhos assistenciais há séculos. Empresários financiam projetos comunitários. Movimentos populares organizam redes de apoio. Instituições filantrópicas oferecem serviços de saúde, educação e assistência. Voluntários de diferentes convicções dedicam tempo e recursos a pessoas que sequer conhecem.

Essas iniciativas podem nascer de motivações distintas, mas frequentemente compartilham objetivos semelhantes.

Uma pessoa conservadora pode defender a responsabilidade individual e, ao mesmo tempo, compreender que ninguém deveria passar fome.

Uma pessoa liberal pode valorizar a livre iniciativa e reconhecer a importância de organizações privadas sem fins lucrativos no enfrentamento de problemas sociais.

Uma pessoa progressista pode defender políticas públicas de redistribuição de renda e também participar de iniciativas comunitárias independentes do Estado.

Essas posições não são necessariamente incompatíveis com a solidariedade.

O problema começa quando questões humanitárias passam a ser tratadas como símbolos exclusivos de determinada ideologia.

A fome não é de esquerda. A pobreza não é de direita. A dignidade humana não pertence a nenhum partido.

Reconhecer isso não exige que as pessoas abandonem suas convicções políticas. Exige apenas compreender que existem responsabilidades humanas que podem e devem ser compartilhadas.

Uma ONG deve ter compromisso com sua causa, não com um partido

As organizações da sociedade civil desempenham um papel importante na sociedade brasileira. Muitas atuam onde os serviços públicos são insuficientes, complementando políticas existentes, mobilizando recursos privados e construindo soluções junto às comunidades.

Sua legitimidade, entretanto, não deveria depender da proximidade com governos, partidos ou lideranças políticas.

Uma organização dedicada ao combate à fome precisa orientar suas decisões pelas necessidades alimentares da população atendida. Uma instituição voltada à proteção de crianças deve colocar os direitos dessas crianças no centro de suas atividades. Uma entidade que trabalha com idosos precisa priorizar sua dignidade, autonomia e bem-estar.

Isso não significa que as ONGs devam permanecer silenciosas diante de problemas sociais ou se afastar dos debates sobre políticas públicas.

Existe uma diferença fundamental entre defender uma causa de interesse público e atuar em favor de um projeto partidário.

Uma organização pode defender o Direito Humano à Alimentação Adequada, cobrar melhorias na assistência social, questionar decisões governamentais e participar de conselhos de políticas públicas sem, por isso, transformar-se em instrumento de propaganda eleitoral.

Da mesma forma, pode reconhecer os acertos de uma administração pública e criticar suas falhas, independentemente do partido que esteja no poder.

A independência institucional não exige ausência de posicionamento sobre direitos. Exige coerência com a missão da organização e autonomia diante das disputas partidárias.

Essa distinção também deve orientar a conduta das próprias ONGs. Organizações que desejam reunir pessoas de diferentes convicções precisam ter cuidado para não confundir suas causas com preferências eleitorais de dirigentes, colaboradores ou parceiros.

O direito de escolher a quem apoiar e a responsabilidade dessa escolha

É importante reconhecer que nenhuma pessoa ou empresa tem obrigação de financiar determinada ONG.

A liberdade de decidir onde investir recursos privados deve ser respeitada. Doadores têm todo o direito de avaliar a credibilidade de uma instituição, suas práticas administrativas, seus valores e a maneira como utiliza os recursos recebidos.

Também é legítimo deixar de apoiar uma organização quando existem evidências de irregularidades, falta de transparência, discriminação ou utilização indevida de recursos.

A questão é outra.

Quando o apoio é retirado exclusivamente porque uma organização foi associada, sem evidências consistentes, a uma posição política, corre-se o risco de substituir a avaliação responsável por um julgamento baseado em rótulos.

Uma empresa que deixa de contribuir com uma cozinha solidária porque acredita que combater a fome é uma pauta de esquerda talvez esteja ignorando o que realmente deveria importar: a qualidade do trabalho realizado, a responsabilidade na aplicação das doações e os resultados para as famílias atendidas.

O mesmo raciocínio vale para quem rejeita uma iniciativa social apenas por ela ter sido criada por empresários, religiosos ou pessoas identificadas com a direita.

Em ambos os casos, a polarização pode impedir que projetos legítimos recebam o reconhecimento que merecem.

E existe uma consequência especialmente preocupante: quem sofre os efeitos da interrupção do apoio não é necessariamente quem participa da discussão política, mas quem depende dos serviços oferecidos.

Quando a disputa ideológica chega à mesa de quem tem fome

Imagine uma cozinha solidária que oferece refeições diariamente a famílias de baixa renda.

Entre as pessoas atendidas estão idosos, crianças, trabalhadores desempregados e pessoas que enfrentam dificuldades para garantir uma alimentação adequada.

Algumas votam em candidatos de direita. Outras preferem candidatos de esquerda. Muitas não possuem identificação partidária alguma. Outras sequer acompanham o debate político.

Para a cozinha, essas diferenças não deveriam ter qualquer importância.

O que importa é a necessidade alimentar e a possibilidade de oferecer uma refeição digna.

Agora imagine que um parceiro interrompa suas doações por considerar que aquela iniciativa representa uma corrente ideológica com a qual não concorda.

A decisão pode ser legítima do ponto de vista da liberdade individual, mas suas consequências ultrapassam a relação entre doador e instituição.

Menos recursos podem significar menos refeições, redução dos dias de atendimento ou dificuldade para manter uma equipe.

Nesse momento, a polarização deixa de ser apenas uma divergência de opiniões e passa a afetar concretamente a vida de pessoas que talvez nem participem daquela disputa.

É justamente por isso que precisamos preservar espaços de cooperação capazes de reunir cidadãos com visões diferentes.

Uma refeição não deveria carregar um rótulo político. E quem contribui para oferecê-la não deveria precisar compartilhar todas as convicções de quem a prepara.

Transparência e independência: responsabilidades das próprias ONGs

Defender as organizações da sociedade civil não significa afirmar que todas atuam corretamente ou que estão acima de críticas.

Existem instituições com diferentes níveis de profissionalização, transparência e capacidade de gestão. Como em qualquer setor, podem ocorrer erros, desvios de finalidade e práticas inadequadas.

Por isso, a confiança precisa ser construída e demonstrada.

Uma ONG que solicita apoio à sociedade deve estar preparada para explicar como utiliza seus recursos, quais atividades realiza, quem é beneficiado e quais resultados consegue alcançar.

Também precisa estabelecer limites claros entre a identidade institucional e as preferências políticas de seus integrantes.

Dirigentes, funcionários e voluntários possuem liberdade de pensamento e participação política como cidadãos. Entretanto, suas posições individuais não devem ser automaticamente confundidas com a posição oficial da instituição.

Preservar essa distinção ajuda a proteger a credibilidade da organização e a manter abertas as portas para pessoas de diferentes convicções.

A neutralidade partidária, quando assumida como princípio institucional, precisa ser praticada, não apenas declarada.

E isso inclui evitar que doações, atendimentos, oportunidades ou parcerias sejam condicionados à concordância política.

O que deveria orientar uma decisão de apoio?

Em vez de perguntar se determinada ONG é de direita ou de esquerda, talvez seja mais útil compreender o trabalho que ela efetivamente desenvolve.

A instituição possui uma finalidade social clara? Atua de maneira responsável? Trata as pessoas atendidas com dignidade? Presta contas dos recursos recebidos? Apresenta resultados verificáveis? Respeita a diversidade de opiniões e mantém autonomia em relação a interesses partidários?

Essas perguntas oferecem critérios muito mais consistentes para uma decisão de apoio.

Também ajudam a distinguir organizações comprometidas com o interesse público daquelas que eventualmente utilizam causas sociais como instrumentos de promoção política ou pessoal.

Empresas podem adotar processos de avaliação e acompanhamento de projetos sociais sem exigir alinhamento ideológico. Doadores individuais podem conhecer o trabalho das instituições antes de contribuir. As próprias ONGs podem ampliar a transparência e fortalecer seus mecanismos de governança.

O resultado tende a ser uma relação mais madura, baseada em responsabilidade e confiança, em vez de afinidade partidária.

A solidariedade pode ser um ponto de encontro

Uma das consequências mais preocupantes da polarização é a dificuldade crescente de reconhecer valores compartilhados entre pessoas que pensam de maneira diferente.

A impressão de que precisamos concordar sobre tudo para construir algo juntos enfraquece a convivência democrática.

Mas a realidade oferece inúmeras oportunidades de cooperação.

Pessoas podem discordar sobre o tamanho ideal do Estado e concordar que crianças precisam de alimentação adequada.

Podem defender modelos econômicos diferentes e reconhecer a importância de garantir dignidade aos idosos.

Podem divergir sobre políticas de segurança pública e, ainda assim, trabalhar juntas para oferecer oportunidades a jovens em situação de vulnerabilidade.

Não é necessário eliminar as diferenças para construir compromissos comuns.

Aliás, a capacidade de cooperar apesar das divergências é uma das expressões mais importantes de uma sociedade plural.

As organizações da sociedade civil podem contribuir para essa aproximação quando se mantêm fiéis às suas missões, acolhem diferentes formas de participação e evitam transformar a solidariedade em instrumento de confronto ideológico.

Antes de retirar o apoio, considere quem será afetado

Este artigo não pretende questionar o direito de ninguém escolher suas causas, parceiros ou instituições.

Também não procura desqualificar pessoas de direita, de esquerda ou de qualquer outra orientação política.

O convite é mais simples: antes de interromper o apoio a uma organização por razões ideológicas, procure conhecer seu trabalho.

Converse com seus responsáveis. Solicite informações. Avalie a transparência. Verifique se existem fatos concretos que justifiquem sua preocupação.

E considere, principalmente, quem poderá ser afetado por essa decisão.

Uma sociedade democrática precisa de liberdade para discordar, mas também precisa preservar a capacidade de agir coletivamente diante de problemas que ultrapassam as disputas eleitorais.

O combate à fome, a proteção de crianças, o cuidado com idosos e a defesa da dignidade humana não deveriam depender da vitória de uma corrente política sobre outra.

São compromissos que podem unir pessoas com diferentes crenças, trajetórias e visões de mundo.

Na ONG É Por Amor, acreditamos que a solidariedade deve aproximar pessoas, não separá-las. Nossa causa é o combate à fome e à insegurança alimentar, com respeito à dignidade de cada pessoa atendida.

Não precisamos pensar da mesma maneira sobre política para reconhecer o valor de uma vida humana.

Não precisamos votar nos mesmos candidatos para compartilhar a responsabilidade de construir uma sociedade mais justa.

E não precisamos concordar em tudo para fazer o bem juntos.

Porque, onde existe fome, nosso lado é o da solidariedade.

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