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A maioria das ONGs são corruptas

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Essa é uma frase dura, repetida com frequência por muitas pessoas quando o assunto é doação, voluntariado ou terceiro setor. Às vezes ela nasce de uma notícia de escândalo. Às vezes vem de uma experiência ruim. Outras vezes surge como desconfiança diante de instituições que pedem dinheiro em nome de causas sociais.

Mas existe um problema grave nessa afirmação: ela transforma casos reais de corrupção em uma condenação coletiva contra milhares de organizações que trabalham todos os dias, muitas vezes com poucos recursos, para alimentar, acolher, educar, cuidar, proteger e defender direitos.

Dizer que “a maioria das ONGs são corruptas” pode parecer apenas uma opinião. Mas, na prática, essa generalização prejudica justamente quem mais precisa de ajuda: pessoas em situação de rua, famílias em extrema pobreza, crianças em vulnerabilidade, mães solo, comunidades periféricas, pessoas com deficiência, idosos, animais abandonados, populações afetadas por tragédias e tantos outros grupos que dependem da ação de organizações sérias.

A desconfiança não nasce do nada

É importante reconhecer: a desconfiança existe por motivos concretos. Há organizações mal administradas. Há instituições que não prestam contas como deveriam. Há pessoas que usam causas sociais para benefício próprio. Há golpes, falsas campanhas e entidades que exploram a emoção das pessoas sem mostrar claramente o destino dos recursos.

Ignorar isso seria ingenuidade.

Quando uma ONG comete fraude, desvia recursos ou age de forma antiética, o dano não atinge apenas aquela instituição. Atinge todo o setor. Cada escândalo enfraquece a confiança pública, afasta doadores e cria a sensação de que nenhuma organização é confiável.

A Pesquisa Doação Brasil 2024, coordenada pelo IDIS, mostrou que notícias negativas têm impacto direto no comportamento dos doadores. Segundo dados divulgados sobre a pesquisa, uma parte significativa dos doadores já deixou de doar por causa de notícias negativas envolvendo organizações ou campanhas sociais. Isso mostra que o problema da confiança é real.

Mas a resposta para esse problema não deveria ser abandonar todas as ONGs. A resposta deveria ser aprender a diferenciar instituições sérias de organizações duvidosas.

Uma ONG séria não pede fé cega. Ela oferece transparência.

A confiança em uma organização social não deve depender apenas de emoção, simpatia ou discurso bonito. Uma ONG séria precisa apresentar informações mínimas sobre quem é, o que faz, como atua, para onde vão os recursos e quais resultados consegue entregar.

Transparência não significa perfeição. Uma ONG pode ter dificuldades, limitações, falhas operacionais e desafios financeiros. Isso faz parte da realidade de muitas organizações, especialmente das menores. O que diferencia uma instituição séria não é nunca errar, mas agir com responsabilidade, corrigir problemas, prestar contas e respeitar a confiança recebida.

Por isso, antes de afirmar que uma ONG é corrupta, é mais justo perguntar:

  • Ela tem CNPJ ativo?
  • Ela informa quem são seus responsáveis?
  • Ela possui site, documentos institucionais ou canais oficiais?
  • Ela publica prestação de contas?
  • Ela mostra fotos, relatórios, ações realizadas e formas de contato?
  • Ela explica como os recursos são utilizados?
  • Ela possui políticas internas, código de ética ou código anticorrupção?
  • Ela permite que o doador acompanhe minimamente o impacto da sua contribuição?

Essas perguntas são mais úteis do que a generalização. Elas ajudam o doador a sair do medo paralisante e entrar em uma postura mais consciente.

Para quem deseja se aprofundar nesse cuidado, vale ler também o artigo Quais instituições são sérias e confiáveis para receber doações? e o guia Como escolher uma ONG para ajudar.

O Brasil tem um universo enorme de organizações sociais

O terceiro setor brasileiro é amplo, diverso e formado por organizações de tamanhos muito diferentes. Existem grandes fundações empresariais, associações comunitárias, institutos culturais, organizações ambientais, entidades de assistência social, grupos de defesa de direitos, coletivos locais e pequenas ONGs que nasceram da dor concreta de quem decidiu agir onde o Estado não chega com eficiência.

O Mapa das Organizações da Sociedade Civil, mantido pelo Ipea, reúne dados sobre organizações da sociedade civil em todo o Brasil e funciona como uma plataforma pública de informação e transparência sobre esse universo.

Isso mostra que o setor não pode ser tratado como se fosse uma coisa só.

Colocar todas as ONGs no mesmo lugar seria como dizer que toda empresa é corrupta porque algumas empresas cometem fraudes, ou que todo político é criminoso porque alguns políticos foram condenados. A corrupção existe em muitos setores, mas a existência de corrupção não autoriza a destruição moral de todos que atuam naquele campo.

No caso das ONGs, essa generalização é ainda mais perigosa, porque o descrédito atinge organizações que muitas vezes sustentam trabalhos essenciais em territórios vulneráveis.

Quando a desconfiança vira desculpa para a indiferença

Existe uma diferença entre ser cuidadoso e usar a desconfiança como desculpa para não se envolver.

Ser cuidadoso é pesquisar antes de doar. É pedir informações. É observar a coerência da instituição. É acompanhar relatórios. É preferir organizações que mostram o que fazem. É escolher com responsabilidade.

Outra coisa é afirmar que “todas” ou “a maioria” são corruptas para não precisar olhar para a fome, para a pobreza, para a rua, para a desigualdade e para a dor do outro.

Às vezes, a frase “ONG é tudo igual” protege mais o conforto de quem não quer ajudar do que a sociedade contra fraudes reais.

Porque, quando alguém generaliza todas as organizações, deixa de enxergar a complexidade do trabalho social. Deixa de perceber voluntários que acordam cedo para cozinhar. Pessoas que separam roupas com cuidado. Equipes que organizam documentos. Contadores que ajudam na regularidade. Doadores pequenos que contribuem todos os meses. Lideranças comunitárias que conhecem pelo nome as famílias atendidas. Gente comum tentando diminuir um sofrimento que não criou.

A corrupção precisa ser combatida. Mas a indiferença também.

Transparência deve ser compromisso da ONG e direito do doador

A Lei nº 13.019/2014, conhecida como Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil, trouxe regras importantes para parcerias entre o poder público e as OSCs, incluindo temas como planejamento, monitoramento, avaliação, transparência e prestação de contas.

Mas mesmo quando uma organização não recebe recurso público, a transparência continua sendo uma obrigação ética. O doador tem o direito de saber, dentro dos limites da operação de cada instituição, como a organização funciona e de que maneira os recursos ajudam a cumprir sua missão.

Uma ONG séria não deve tratar a prestação de contas como incômodo. Deve tratá-la como parte da sua responsabilidade pública.

No caso da ONG É Por Amor, esse compromisso aparece em páginas institucionais como Prestação de Contas, Documentos, Código de Ética e Conduta, Código Anticorrupção e Relatório de Impacto.

Esses instrumentos não existem apenas para “parecer sério”. Eles ajudam a criar uma cultura de responsabilidade, onde a causa social não se sustenta apenas na boa intenção, mas também em governança, registro, clareza e compromisso com quem doa e com quem recebe apoio.

ONG pequena também pode ser séria

Outro erro comum é imaginar que apenas organizações grandes são confiáveis. Muitas ONGs pequenas fazem trabalhos extremamente importantes, justamente por estarem perto da realidade que atendem.

Uma organização comunitária pode não ter uma estrutura sofisticada de comunicação, equipe grande ou relatórios com design profissional. Ainda assim, pode ser honesta, comprometida e profundamente necessária.

O desafio é encontrar equilíbrio. Não se deve exigir de uma pequena ONG a mesma estrutura de uma grande fundação internacional. Mas é justo esperar clareza, organização mínima, canais oficiais, prestação de contas possível e coerência entre discurso e prática.

Da mesma forma, uma organização grande não deve ser considerada confiável apenas pelo tamanho. Grandes estruturas também precisam prestar contas, explicar seus custos administrativos, demonstrar impacto e agir com ética.

Confiança não deve ser medida pelo tamanho da instituição, mas pela soma entre transparência, coerência, histórico, responsabilidade e impacto real.

O custo de desconfiar de todas é alto

Quando a sociedade passa a acreditar que a maioria das ONGs é corrupta, o resultado é grave. As doações diminuem. O voluntariado enfraquece. Empresas hesitam em apoiar projetos sociais. Pessoas bem-intencionadas se afastam. Organizações sérias passam a gastar energia provando que não são fraudulentas, em vez de concentrar seus esforços no atendimento de quem precisa.

No fim, quem paga essa conta não são as ONGs corruptas. Quem paga são as famílias que deixam de receber alimento, as pessoas em situação de rua que deixam de ser acolhidas, as crianças que deixam de participar de atividades, as mães solo que deixam de receber apoio, os territórios que deixam de contar com ações de solidariedade.

A corrupção precisa ser denunciada, investigada e punida. Mas a generalização também produz injustiça.

Uma sociedade que desconfia de tudo sem critério pode acabar punindo os honestos e fortalecendo o cinismo. E o cinismo é confortável para quem não quer se responsabilizar por nada.

Como doar sem ingenuidade

Doar não precisa ser um ato ingênuo. Pode ser um ato consciente.

Antes de contribuir, procure o site da instituição. Veja se ela apresenta sua missão, seus projetos, sua equipe ou seus responsáveis. Busque documentos. Observe se há prestação de contas. Leia relatórios. Acompanhe as redes sociais. Veja se há constância nas ações. Pesquise o CNPJ. Dê preferência a canais oficiais de doação. Desconfie de campanhas sem identificação clara, sem dados institucionais ou que pressionam emocionalmente sem oferecer nenhuma informação concreta.

Também é possível começar com uma doação menor, acompanhar a organização e aumentar o apoio com o tempo. Confiança pode ser construída aos poucos.

O importante é não permitir que o medo paralise a solidariedade.

Quem deseja apoiar o combate à fome e à pobreza pode conhecer os canais oficiais da página de doação da ONG É Por Amor ou entender melhor seus projetos, como a Cozinha Solidária e o Projeto Desperdício Zero.

O problema não é perguntar. O problema é condenar antes de conhecer.

Perguntar é saudável. Cobrar transparência é necessário. Exigir responsabilidade é justo. Investigar antes de doar é sinal de maturidade.

O problema está em transformar a desconfiança em sentença coletiva.

A maioria das ONGs não deve ser tratada como corrupta apenas porque algumas organizações traíram a confiança pública. O que precisamos é de uma sociedade mais criteriosa, não mais indiferente. Mais atenta, não mais cínica. Mais exigente, não menos solidária.

Porque, enquanto discutimos se devemos ou não confiar em todas as ONGs, existe gente com fome hoje. Existe gente dormindo na rua hoje. Existe família sem comida suficiente hoje. Existe criança crescendo em meio à pobreza hoje.

A pergunta mais justa talvez não seja “todas as ONGs são confiáveis?”.

A pergunta mais responsável é: “como posso identificar uma organização séria e apoiar uma causa sem fechar os olhos para a transparência?”.

Essa mudança de pergunta faz toda a diferença.

Conclusão

Não, a maioria das ONGs não pode ser chamada de corrupta sem provas. O que existe é um setor amplo, diverso e desigual, onde há organizações exemplares, organizações frágeis, organizações em amadurecimento e, sim, casos que precisam ser denunciados e responsabilizados.

Mas generalizar é injusto.

Mais do que repetir que “ONG é tudo igual”, precisamos fortalecer uma cultura de doação consciente. Uma cultura em que as organizações prestem contas, os doadores pesquisem, a sociedade cobre ética e as causas sociais não sejam abandonadas por causa dos erros de alguns.

A solidariedade não precisa ser cega. Mas também não pode ser sufocada pela suspeita permanente.

Entre a ingenuidade e o cinismo, existe um caminho mais humano: confiança com responsabilidade.

Fontes consultadas

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