A população em situação de rua no Brasil não é formada por um único perfil. Há homens, mulheres, idosos, jovens, pessoas com deficiência, famílias inteiras, pessoas negras, migrantes, trabalhadores informais, pessoas com sofrimento psíquico, dependentes químicos, pessoas expulsas de casa e tantas outras trajetórias marcadas por rupturas, perdas, violências e ausência de proteção social. Dentro desse universo já profundamente vulnerabilizado, existe um grupo ainda mais invisibilizado: as mulheres trans e travestis em situação de rua.
Falar sobre mulheres trans e travestis que vivem nas ruas é falar sobre uma exclusão que começa, muitas vezes, antes da rua. A rua pode ser o ponto mais visível da vulnerabilidade, mas raramente é seu início. Antes dela, podem existir rejeição familiar, abandono escolar, dificuldade de acesso ao trabalho formal, discriminação nos serviços públicos, violência de gênero, racismo, pobreza, insegurança alimentar e ausência de redes de apoio. Quando essas camadas se acumulam, a rua deixa de ser apenas um lugar físico e passa a representar uma condição extrema de desproteção.
A literatura sobre o tema ainda é limitada, mas os estudos disponíveis apontam para um cenário consistente: mulheres trans e travestis em situação de rua enfrentam formas específicas de violência e exclusão, muitas vezes não contempladas pelas políticas públicas voltadas genericamente à população em situação de rua. O relatório da PUC-Rio sobre mulheres trans e travestis em situação de rua no Rio de Janeiro observa que essa população enfrenta desafios amplificados pela insuficiência das políticas públicas de proteção social e pela combinação entre identidade de gênero marginalizada e condições de vida nas ruas.
A invisibilidade dentro da própria vulnerabilidade
A população em situação de rua já é, por si só, frequentemente invisível aos olhos da sociedade. Mas as mulheres trans e travestis em situação de rua vivem uma invisibilidade ainda mais profunda: muitas vezes não aparecem adequadamente nos dados, não são ouvidas na formulação das políticas públicas e não encontram serviços preparados para acolher suas necessidades específicas.
Essa ausência de dados é um problema central. Sem informação confiável, não há diagnóstico preciso. Sem diagnóstico, não há planejamento adequado. Sem planejamento, as políticas públicas acabam sendo genéricas, insuficientes ou até mesmo excludentes.
O estudo sobre a população em situação de rua em Niterói, por exemplo, identificou quatro mulheres trans/travestis entre 157 pessoas entrevistadas em 2022. Embora o número seja pequeno, ele revela a importância de incluir identidade de gênero nos levantamentos sobre população em situação de rua. O mesmo estudo mostra que, entre essas quatro mulheres trans/travestis, 75% se autodeclararam pretas ou pardas, evidenciando também o cruzamento entre transfobia, racismo e pobreza.
A invisibilidade estatística não significa ausência. Significa, muitas vezes, dificuldade de abordagem, subnotificação, medo de responder, ausência de perguntas adequadas ou despreparo das equipes responsáveis pelos levantamentos. Quando uma política pública não enxerga uma população, essa população tende a continuar sem atendimento adequado.
A rua como consequência de exclusões anteriores
É comum que a sociedade olhe para a pessoa em situação de rua apenas no momento em que ela já está na calçada, no abrigo, na praça ou na fila de uma ação social. Mas, para muitas mulheres trans e travestis, a ida para a rua pode ser resultado de uma longa sequência de negações.
A exclusão familiar pode ocorrer ainda na adolescência ou juventude, quando a identidade de gênero passa a ser rejeitada dentro de casa. A escola, que deveria ser espaço de proteção, pode se tornar ambiente de humilhação e evasão. O mercado de trabalho formal, marcado por preconceitos, muitas vezes fecha portas antes mesmo da primeira oportunidade. O acesso à moradia se torna difícil sem renda, documentação regular, apoio familiar ou rede comunitária estável.
O artigo “À margem da cidade”, desenvolvido a partir da pesquisa “Mulheres com trajetórias de rua” em Belo Horizonte, analisa histórias de vida de mulheres trans com trajetórias de rua e destaca categorias como família, afeto, trabalho e violência institucional. O estudo aponta que essas trajetórias são atravessadas por vulnerabilidades que produzem invisibilidade, exclusão e pobreza.
Essa perspectiva é fundamental porque impede uma leitura simplista da situação de rua. Ninguém deve ser reduzido à condição em que se encontra. A pessoa em situação de rua tem história, vínculos, perdas, desejos, medos, experiências e direitos. No caso das mulheres trans e travestis, reconhecer essa história também significa entender que a exclusão de gênero, quando combinada à pobreza, pode empurrar pessoas para situações extremas.
Quando o serviço público também pode excluir
A existência de um serviço público não garante, por si só, acesso real. Para mulheres trans e travestis em situação de rua, o acesso à assistência social, à saúde, à moradia provisória e à proteção institucional pode ser bloqueado por barreiras formais e informais.
Uma dessas barreiras é o desrespeito à identidade de gênero. Quando uma mulher trans é tratada pelo nome errado, colocada em espaços incompatíveis com sua identidade, exposta a constrangimento ou obrigada a se adaptar a regras que ignoram sua existência, o serviço que deveria proteger pode acabar reproduzindo violência.
A pesquisa divulgada pela Faculdade de Medicina da UFMG sobre moradoras de rua trans e travestis em Belo Horizonte destaca exatamente esse ponto: ao acessarem serviços públicos, essas mulheres podem encontrar reprodução da violência por meio de regras e normas que não respeitam a identidade de gênero e o tempo de cada pessoa. O estudo também aponta dificuldades específicas em unidades de moradia provisória, onde mulheres trans e travestis podem sofrer discriminação quando colocadas junto às mulheres cis e assédio ou violência quando colocadas junto aos homens.
Esse ponto é decisivo. Não basta oferecer vaga, abrigo, atendimento ou encaminhamento. É preciso perguntar: esse serviço é seguro? Respeita o nome social? Garante privacidade? Tem equipe preparada? Escuta a pessoa atendida? Considera o risco de violência? Permite que a mulher trans ou travesti seja atendida como sujeito de direitos, e não como problema?
Saúde, corpo e sobrevivência
As mulheres trans e travestis em situação de rua também enfrentam barreiras importantes no acesso à saúde. Essas barreiras envolvem desde o preconceito no atendimento até a dificuldade de manter acompanhamento regular, guardar medicamentos, realizar exames, acessar serviços especializados ou receber cuidado contínuo.
No caso de pessoas trans, a saúde não pode ser tratada apenas como atendimento emergencial. Há demandas relacionadas à saúde mental, saúde sexual, prevenção de infecções, acompanhamento hormonal, cuidado com o corpo, violência sofrida, alimentação, sono, higiene e segurança. Quando não há acesso adequado ao sistema de saúde, muitas pessoas recorrem a práticas informais e arriscadas, não por escolha ideal, mas por falta de alternativa protegida.
A pesquisa da UFMG relata que processos de transição podem ocorrer sem acompanhamento profissional, com uso inadequado de hormônios e outras práticas de risco, justamente pela ausência de acesso regular e respeitoso aos serviços de saúde.
É importante tratar esse tema com responsabilidade. O problema não está na identidade trans. O problema está na falta de acesso seguro, digno e contínuo à saúde. Quando o sistema falha, a vulnerabilidade aumenta.
Violência, medo e exposição permanente
A rua é um espaço de exposição. Para mulheres trans e travestis, essa exposição pode ser ainda mais perigosa. A violência pode vir de desconhecidos, de grupos organizados, de agentes públicos, de pessoas que também vivem nas ruas, de clientes, de parceiros, de instituições ou de quem se aproveita da vulnerabilidade extrema.
A violência pode ser física, verbal, psicológica, sexual, patrimonial ou institucional. Pode aparecer no xingamento, na ameaça, no deboche, na recusa de atendimento, no constrangimento público, na expulsão de espaços, na negação de documentos, na abordagem desrespeitosa ou na ausência de proteção quando a pessoa pede ajuda.
O artigo da PUC-Rio sobre o Rio de Janeiro observa que a discriminação direta por parte de profissionais de saúde e assistência social aparece como uma questão relevante relatada pelas mulheres trans e travestis em situação de rua.
Por isso, é insuficiente falar apenas em “acolher pessoas em situação de rua”. É necessário discutir como acolher de forma segura pessoas que, além da pobreza e da ausência de moradia, também carregam o risco de sofrer violência por sua identidade de gênero.
Pandemia, fome e agravamento da desproteção
A pandemia de Covid-19 evidenciou ainda mais as desigualdades vividas pela população em situação de rua. Para quem não tinha casa, a recomendação de isolamento era quase impossível. Para quem dependia de circulação nas ruas, doações, pequenos trabalhos, redes informais ou serviços presenciais, a interrupção da rotina significou mais fome, mais exposição e mais insegurança.
O artigo “Entre a invisibilidade e a resistência”, apresentado no CBAS 2025, analisa a realidade de mulheres transexuais e travestis em situação de rua na cidade do Rio de Janeiro durante a pandemia, com base nos censos municipais de 2020 e 2022. O estudo aponta que a crise sanitária elevou a exposição a violências, fome e adoecimento, além de dificultar o acesso aos serviços, que passaram a funcionar em sistema remoto em muitos casos.
Esse ponto é especialmente importante para organizações sociais que atuam com alimentação. Para muitas pessoas em situação de rua, uma refeição não é apenas comida. É presença. É vínculo. É reconhecimento. É a possibilidade de alguém olhar, chamar pelo nome, perceber uma ausência, identificar um risco, encaminhar para atendimento ou simplesmente lembrar que aquela vida importa.
A importância da escuta e do nome
Uma política pública ou uma ação social começa a mudar quando deixa de tratar a população atendida como massa anônima. No caso de mulheres trans e travestis em situação de rua, o respeito começa por algo básico: o nome.
Chamar pelo nome correto, respeitar a identidade de gênero, não expor a pessoa, não fazer perguntas invasivas, não condicionar ajuda a julgamento moral e não tratar a existência trans como problema são atitudes mínimas. Ainda assim, para quem viveu repetidas experiências de humilhação, o mínimo pode ter um impacto profundo.
Escutar também significa compreender que nem toda pessoa aceitará imediatamente um encaminhamento. A rua produz defesas. Quem já foi maltratado por serviços pode desconfiar de novas ofertas. Quem já sofreu violência em abrigo pode preferir permanecer na rua a voltar para um local onde não se sentiu seguro. Quem já foi desrespeitado pode evitar instituições. Por isso, acolher exige continuidade, paciência e vínculo.
O papel das organizações sociais
Organizações sociais que atuam com população em situação de rua têm um papel importante nesse cenário. Elas não substituem o Estado, mas podem construir pontes entre a rua e a rede de proteção. Podem oferecer alimentação, escuta, encaminhamento, orientação, documentação, articulação com saúde e assistência, além de denunciar violações e pressionar por políticas públicas mais adequadas.
Mas também precisam se preparar. A boa intenção não basta. É necessário formar voluntários e equipes para lidar com diversidade, nome social, identidade de gênero, linguagem respeitosa, abordagem sem julgamento e encaminhamento seguro.
Para uma organização como a ONG É Por Amor, que atua com pessoas em situação de rua e com famílias em extrema vulnerabilidade, esse tema dialoga diretamente com sua missão de combater a fome e cultivar dignidade. A dignidade não está apenas no prato de comida. Está no modo como a pessoa é olhada, chamada, recebida e respeitada.
O que precisa mudar
A partir dos estudos analisados, algumas necessidades aparecem com clareza.
Primeiro, é preciso produzir mais dados. Censos, diagnósticos municipais, pesquisas acadêmicas e cadastros públicos devem incluir identidade de gênero e orientação sexual de forma segura, ética e respeitosa. Sem isso, mulheres trans e travestis continuarão aparecendo pouco nas estatísticas e, consequentemente, pouco nas políticas.
Segundo, os serviços de acolhimento precisam ser revistos. Não basta separar rigidamente por sexo biológico ou ignorar riscos específicos. É preciso construir protocolos que garantam segurança, privacidade, respeito à identidade de gênero e prevenção de violência.
Terceiro, as equipes de saúde, assistência social, abordagem de rua, abrigos e organizações parceiras precisam de formação continuada. A falta de preparo pode transformar atendimento em nova violência.
Quarto, políticas de moradia, trabalho e renda precisam considerar a realidade de mulheres trans e travestis. A saída da rua não acontece apenas com uma vaga em abrigo. Ela depende de documentação, renda, cuidado em saúde, proteção contra violência, vínculos e oportunidades reais.
Quinto, é necessário incluir as próprias mulheres trans e travestis na construção das soluções. Nenhuma política será plenamente adequada se for criada sem escutar quem vive ou viveu essa realidade.
Conclusão: enxergar para proteger
Mulheres trans e travestis em situação de rua não vivem apenas uma vulnerabilidade. Vivem a sobreposição de várias: pobreza, falta de moradia, insegurança alimentar, violência de gênero, transfobia, racismo, exclusão do trabalho, barreiras de acesso à saúde e desproteção institucional.
Enxergar essa realidade não é dividir a população em situação de rua em grupos concorrentes. É reconhecer que pessoas diferentes enfrentam riscos diferentes e, por isso, precisam de respostas adequadas. A justiça social não se faz tratando todos como se tivessem as mesmas necessidades. Faz-se reconhecendo as diferenças para garantir o mesmo direito à vida, à proteção e à dignidade.
Quando uma mulher trans ou travesti em situação de rua recebe uma refeição, um atendimento respeitoso, uma escuta verdadeira ou um encaminhamento seguro, ela não recebe favor. Ela acessa um direito que lhe foi negado muitas vezes.
A pergunta que deve orientar a sociedade, o poder público e as organizações sociais não é se essas vidas merecem cuidado. Toda vida merece. A pergunta correta é: quanto ainda precisamos mudar para que esse cuidado chegue sem violência, sem humilhação e sem invisibilidade?
Fontes consultadas
- Dias, W. P. et al. Pessoas trans e travestis em situação de rua em Salvador: estudo descritivo sobre o perfil sociodemográfico e de acesso aos serviços socioassistenciais e de saúde. Epidemiologia e Serviços de Saúde / SciELO, 2024. Disponível em:
https://www.scielosp.org/article/ress/2024.v33nspe1/e2024515/pt/ - Braga, Dalva da Conceição; Nunes, Nilza Rogéria de Andrade. Mulheres trans e travesti em situação de rua e a (des)proteção social. Relatório Final de Pesquisa PIBIC, PUC-Rio, 2024. Disponível em:
https://www.puc-rio.br/ensinopesq/ccpg/pibic/relatorio_resumo2024/download/relatorios/CCS/SER/CCS-SER-Rel000029-002518-03-00.pdf - Dias, André Luiz Freitas et al. À margem da cidade: trajetórias de invisibilidade e exclusão de travestis em situação de rua. Pesquisas e Práticas Psicossociais, 2015. Disponível em:
https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S1983-82202015000200005&script=sci_arttext - Faculdade de Medicina da UFMG. Pesquisa avalia situação de moradoras de rua trans e travestis em Belo Horizonte, 2019. Disponível em:
https://www.medicina.ufmg.br/pesquisa-avalia-situacao-de-moradoras-de-rua-trans-e-travestis-em-belo-horizonte/ - Silva, Silvana Caulla Mendes da. “Entre a invisibilidade e a resistência”: a realidade das mulheres transexuais e travestis em situação de rua na cidade do Rio de Janeiro durante a pandemia da Covid-19. CBAS 2025. Disponível em:
https://cfess.org.br/cbas2025-assets/pdf/625-1276047_14_08_2025_02-21-57_9874_v4.pdf - Lobato, Lenaura de Vasconcelos Costa et al. População em Situação de Rua em Niterói: subsídios para construção de uma política municipal. Universidade Federal Fluminense, 2024. Disponível em:
https://politicasocial.uff.br/wp-content/uploads/sites/124/delightful-downloads/2024/01/E-book_Populacao-rua-digital.pdf
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