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Quando o benefício não basta: por que tantos idosos precisam escolher entre comida, remédio e contas

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Quando o benefício não basta: por que tantos idosos precisam escolher entre comida, remédio e contas

Envelhecer deveria significar chegar a uma etapa da vida com alguma segurança depois de décadas de trabalho, responsabilidades e contribuição à família e à sociedade.

Para muitos brasileiros, porém, a realidade é outra.

Há idosos que chegam ao fim do mês fazendo contas que não deveriam fazer parte da velhice: comprar os medicamentos ou reforçar a alimentação? Pagar a conta de luz ou comprar carne? Quitar o aluguel ou deixar algum dinheiro reservado para uma emergência?

Nem sempre estamos falando de pessoas sem nenhuma renda.

Muitas recebem aposentadoria, pensão ou o Benefício de Prestação Continuada, o BPC. Ainda assim, vivem em situação de vulnerabilidade.

Esse é um aspecto da pobreza que frequentemente permanece escondido.

Quando pensamos em fome ou insegurança alimentar, é comum imaginarmos alguém sem renda ou sem qualquer fonte de sustento. Mas existe também uma população que recebe algum dinheiro todos os meses e, mesmo assim, não consegue fazer com que ele seja suficiente para todas as necessidades básicas.

Entre os idosos, isso pode assumir contornos especialmente graves.

O Brasil está envelhecendo

A população brasileira passa por uma rápida transformação demográfica.

No Censo de 2022, as pessoas com 60 anos ou mais já correspondiam a 15,8% da população brasileira. Em 1980, representavam apenas 6,1%.

Ou seja, não estamos diante de um problema restrito a um pequeno grupo.

À medida que o país envelhece, cresce também a necessidade de discutir que tipo de velhice estamos construindo.

Viver mais é uma conquista social.

Mas viver mais tempo sem renda suficiente, alimentação adequada, moradia segura, acesso a medicamentos e uma rede de proteção pode transformar essa conquista em uma sucessão de dificuldades.

Por isso, falar sobre envelhecimento não pode significar apenas discutir Previdência ou expectativa de vida.

Precisamos falar sobre como essas pessoas estão vivendo.

Ter uma renda não significa necessariamente ter segurança

Uma aposentadoria mensal pode parecer suficiente quando observada isoladamente.

O problema aparece quando começamos a colocar as despesas ao lado dela.

Moradia, água, energia elétrica, gás, alimentação, transporte, medicamentos, itens de higiene e eventuais gastos de saúde precisam sair do mesmo orçamento.

Em muitos casos, o idoso ainda ajuda filhos, netos ou outros familiares.

A renda que deveria garantir sua própria subsistência passa a sustentar parte da família.

Os dados nacionais ajudam a dimensionar a importância dessa renda. Em 2025, cerca de 29,3 milhões de brasileiros recebiam rendimentos provenientes de aposentadorias ou pensões, segundo o IBGE.

Mas médias nacionais escondem enormes diferenças.

Há aposentadorias acima do salário mínimo e famílias com outras fontes de renda. Ao mesmo tempo, há milhões de pessoas cuja sobrevivência depende de valores muito mais próximos do piso previdenciário ou de benefícios assistenciais.

É nesse ponto que surge uma distinção importante:

receber dinheiro todos os meses não é a mesma coisa que possuir renda suficiente para viver com dignidade.

O BPC protege, mas revela também uma enorme vulnerabilidade

Para os idosos em situação de baixa renda que não possuem cobertura previdenciária suficiente, existe o Benefício de Prestação Continuada.

O BPC garante um salário mínimo mensal à pessoa com 65 anos ou mais que atenda aos critérios socioeconômicos estabelecidos pela legislação. Diferentemente de uma aposentadoria, não exige contribuição anterior ao INSS.

É uma das principais ferramentas brasileiras de proteção social à população idosa mais pobre.

Sem ele, a situação de muitas famílias seria ainda mais grave.

Mas o fato de uma pessoa precisar preencher critérios de baixa renda para receber o benefício já demonstra a vulnerabilidade em que vive.

E existe outra questão importante: o BPC não é uma aposentadoria. Ele não paga 13º salário e não gera pensão por morte aos dependentes.

Na prática, portanto, um idoso pode possuir uma renda mensal relativamente previsível e continuar extremamente exposto a qualquer aumento de despesas ou acontecimento inesperado.

Um eletrodoméstico que quebra.

Uma consulta que não consegue marcar rapidamente pelo SUS.

Um medicamento que falta temporariamente na rede pública.

Um reajuste do aluguel.

Uma conta de luz maior.

Qualquer uma dessas situações pode desmontar um orçamento que já funcionava no limite.

O peso dos medicamentos

A velhice tende a trazer também um aumento das necessidades relacionadas à saúde.

Nem todo idoso tem doença crônica, obviamente. Mas hipertensão, diabetes, problemas cardiovasculares, dores articulares e outras condições tornam o acompanhamento médico e o uso contínuo de medicamentos parte da realidade de muitas pessoas.

O SUS e seus programas de assistência farmacêutica têm um papel decisivo na redução desses custos.

Ainda assim, nem sempre todos os medicamentos necessários estão disponíveis gratuitamente ou são encontrados no momento em que o paciente precisa deles.

Quando isso acontece, a farmácia passa a disputar espaço diretamente com o supermercado.

Estudos brasileiros há muitos anos chamam atenção para o impacto dos medicamentos sobre o orçamento dos idosos. Pesquisas também mostram que o comprometimento proporcional da renda com medicamentos tende a pesar mais entre os grupos de menor renda.

O problema não é apenas gastar com remédios.

É o que deixa de ser comprado por causa deles.

Para quem possui uma renda confortável, pagar um medicamento adicional pode representar apenas mais uma despesa.

Para quem vive com um orçamento mínimo, os mesmos cem reais podem representar vários dias de alimentação.

É assim que a fome pode entrar em uma casa que possui renda

A insegurança alimentar não começa necessariamente quando a geladeira fica completamente vazia.

Antes disso, muitas famílias já passaram por diversas adaptações.

A carne desaparece com mais frequência.

Frutas e legumes são comprados em menor quantidade.

Produtos mais nutritivos são substituídos por alternativas mais baratas.

As porções diminuem.

Algumas refeições passam a ser compostas quase exclusivamente pelos alimentos que rendem mais.

E pode chegar um momento em que uma refeição é simplesmente retirada do dia.

Por isso, quando olhamos para um idoso segurando uma sacola de alimentos recebida de uma organização social ou esperando uma refeição em uma cozinha solidária, não devemos concluir automaticamente que aquela pessoa não possui nenhum rendimento.

Talvez possua.

O que pode não possuir é dinheiro suficiente depois de pagar tudo o que precisa pagar para continuar vivendo.

Essa diferença é fundamental para compreendermos a pobreza de maneira mais realista.

A melhora dos indicadores não elimina o problema

É importante reconhecer que o Brasil apresentou avanços recentes em alguns indicadores sociais.

Dados divulgados em 2026 pelo Observatório Brasileiro das Desigualdades mostram, por exemplo, redução de indicadores relacionados à insegurança alimentar e à vulnerabilidade social. Entre pessoas com 60 anos ou mais, um dos indicadores de desnutrição acompanhados pelo relatório caiu de 12,4% em 2024 para 11,9% em 2025.

Melhorias como essa são importantes e devem ser reconhecidas.

Mas uma redução estatística não significa que o problema desapareceu.

Quando um indicador cai de milhões de pessoas para um número um pouco menor de milhões, existe progresso — mas continuam existindo pessoas.

Essa distinção importa porque políticas sociais não podem ser avaliadas apenas pela direção das curvas.

Elas precisam ser avaliadas também pela vida de quem ainda permanece do lado mais vulnerável da estatística.

Há idosos sustentando famílias inteiras

Existe ainda outra realidade que merece atenção.

Em muitas famílias brasileiras, a aposentadoria ou o benefício recebido por uma pessoa idosa não sustenta apenas ela.

Sustenta a casa.

Ajuda a alimentar filhos adultos desempregados ou em trabalhos precários.

Contribui para a criação dos netos.

Paga parte das contas.

Compra medicamentos para outras pessoas.

Em alguns lares, a renda mais estável da família é justamente a do idoso.

Isso cria uma situação contraditória.

A mesma política de proteção social criada para garantir segurança à pessoa idosa acaba funcionando também como uma espécie de rede de proteção para várias gerações.

É positivo que essa renda ajude a família.

O problema aparece quando essa responsabilidade compromete as próprias condições de vida da pessoa que deveria ser protegida.

Moradia transforma completamente essa equação

Existe uma diferença enorme entre receber um salário mínimo vivendo em imóvel próprio e receber o mesmo valor precisando pagar aluguel.

Quando parte significativa da renda desaparece antes mesmo de começar o mês, todo o restante precisa caber no que sobra.

Também por isso as análises sobre pobreza não deveriam observar apenas o valor nominal da renda.

Duas pessoas podem receber exatamente o mesmo benefício e viver situações completamente diferentes.

Uma possui casa própria, recebe medicamentos pelo SUS e divide algumas despesas com familiares.

Outra vive sozinha, paga aluguel, compra parte dos medicamentos e arca integralmente com luz, gás e alimentação.

Formalmente, as rendas podem ser iguais.

Materialmente, suas possibilidades são muito diferentes.

Existe também a pobreza que ninguém vê

Nem toda vulnerabilidade aparece nas ruas.

Há idosos vivendo sozinhos em pequenos apartamentos, casas ou quartos, sem pedir ajuda.

Muitos trabalharam a vida inteira e sentem vergonha de admitir que a renda não está sendo suficiente.

Outros reduzem silenciosamente o consumo.

Não compram roupas.

Adiam cuidados odontológicos.

Desistem de pequenos momentos de lazer.

E economizam principalmente onde conseguem economizar com mais facilidade: na alimentação.

Essa pobreza é particularmente difícil de identificar porque pode estar atrás de uma porta fechada.

A pessoa possui endereço.

Possui documentos.

Possui alguma renda.

Talvez possua até uma televisão e alguns móveis comprados em outros momentos da vida.

Nenhuma dessas coisas significa que existe comida suficiente naquela casa hoje.

A pobreza não apaga automaticamente aquilo que uma pessoa construiu ao longo da vida.

E possuir alguns bens não significa possuir renda disponível.

A alimentação é uma das despesas mais flexíveis – e por isso acaba sendo sacrificada

Aluguel tem data.

Conta de luz tem vencimento.

Medicamento tem horário.

A comida, aparentemente, pode esperar.

É possível trocar um produto por outro.

Comprar menos.

Reduzir a quantidade.

Improvisar.

É justamente essa aparente flexibilidade que torna a alimentação uma das primeiras áreas atingidas quando o orçamento não fecha.

A pessoa não deixa de pagar metade do aluguel e continua morando normalmente.

Mas pode comer um pouco menos hoje.

Pode trocar o almoço por café e pão.

Pode deixar a proteína para outro dia.

Pode reduzir frutas e verduras.

Pode fazer isso durante semanas sem que ninguém perceba.

Até que os impactos apareçam na saúde.

E então o problema se retroalimenta

Alimentação inadequada pode piorar condições de saúde.

Uma saúde mais frágil pode aumentar a necessidade de medicamentos, consultas e cuidados.

Esses gastos reduzem ainda mais o orçamento disponível para alimentação.

Cria-se um ciclo difícil de romper:

menos renda disponível, pior alimentação, maior vulnerabilidade de saúde e novas despesas.

Por isso, combater a fome entre idosos não pode significar apenas entregar alimentos.

A ajuda alimentar é indispensável quando existe necessidade imediata.

Mas o problema exige também políticas de saúde, assistência social, habitação, acesso a medicamentos, renda e proteção contra abusos financeiros.

Envelhecer com dignidade precisa significar mais do que sobreviver

Existe uma diferença entre estar vivo e viver com dignidade.

Uma sociedade não pode considerar resolvida a proteção de uma pessoa idosa simplesmente porque algum benefício entra em sua conta todos os meses.

É preciso perguntar o que aquele dinheiro consegue comprar.

Existe alimentação adequada?

Há condições de pagar a moradia?

Os medicamentos estão disponíveis?

A pessoa consegue manter a casa?

Consegue sair?

Conviver?

Participar da comunidade?

Possui alguém a quem recorrer quando precisa?

A dignidade na velhice não deveria ser medida apenas pela ausência de abandono absoluto.

Ela envolve autonomia, segurança e a possibilidade de fazer escolhas que não sejam permanentemente determinadas pela falta de dinheiro.

Entre comida e remédio não deveria existir escolha

Talvez a melhor maneira de compreender essa realidade seja imaginar uma mesa.

Sobre ela estão um boleto de energia elétrica, uma receita médica, o aluguel e uma lista de supermercado.

O dinheiro disponível não paga tudo.

Alguma coisa precisa ser retirada.

É essa decisão que milhares de pessoas tomam dentro de suas casas sem que a maior parte da sociedade perceba.

Quando uma pessoa idosa precisa escolher entre comer adequadamente e cuidar da própria saúde, não estamos diante apenas de uma dificuldade individual de orçamento.

Estamos diante de uma questão de proteção social.

O Brasil conseguiu construir mecanismos importantes, como a Previdência Social, o SUS, o BPC, a assistência farmacêutica e o Sistema Único de Assistência Social.

Esses instrumentos fazem diferença real na vida de milhões de pessoas.

Mas garantir uma renda mínima é o começo da proteção — não necessariamente o seu fim.

Em uma sociedade que envelhece rapidamente, teremos cada vez mais de responder a uma pergunta fundamental:

queremos apenas que as pessoas vivam mais ou queremos que tenham condições de viver bem os anos que conquistamos coletivamente?

Nenhum idoso deveria chegar ao fim da vida precisando decidir qual necessidade básica terá de abandonar naquele mês.

Muito menos escolher entre a comida e o remédio.

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