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Bets, dívida e vulnerabilidade: a conta social de uma indústria que vende esperança instantânea

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O crescimento das apostas on-line transformou o celular em uma casa de jogos aberta 24 horas por dia. Em poucos segundos, uma pessoa pode apostar durante uma partida de futebol, em resultados de eventos internacionais, em jogos virtuais ou em modalidades que simulam cassinos. Não há necessidade de deslocamento, dinheiro físico ou planejamento. Basta uma conta, um aplicativo e uma transferência instantânea.

Essa facilidade costuma ser apresentada como entretenimento, liberdade de escolha e modernização do mercado. Entretanto, por trás das campanhas publicitárias, dos patrocínios esportivos, dos influenciadores e das promessas de ganhos rápidos existe um problema social crescente: a transferência de parte da renda das famílias para uma atividade matematicamente estruturada para produzir lucro às empresas operadoras.

O problema não se limita às plataformas ilegais. As bets legalizadas são mais fiscalizáveis, devem cumprir determinadas regras e oferecem alguma proteção institucional ao consumidor. Isso, porém, não elimina a possibilidade de dependência, endividamento, desorganização familiar e comprometimento da renda destinada às necessidades básicas.

A legalidade pode organizar o mercado. Ela não torna a aposta financeiramente vantajosa nem socialmente inofensiva.

A regulamentação necessária, mas insuficiente

As apostas de quota fixa foram legalizadas no Brasil pela Lei nº 13.756, de 2018, e tiveram seu marco regulatório consolidado pela Lei nº 14.790, de 2023. Desde 1º de janeiro de 2025, as empresas que pretendem atuar nacionalmente precisam de autorização da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda. No âmbito federal, as marcas autorizadas utilizam endereços terminados em “.bet.br”.

Em julho de 2026, o Ministério da Fazenda informou que 85 empresas estavam autorizadas a operar no mercado regulado. A regulamentação proíbe, entre outras práticas, o uso de cartão de crédito, o oferecimento de crédito para apostar e os bônus de entrada destinados a atrair novos jogadores. Também existem regras de identificação dos usuários, reconhecimento facial, prevenção à lavagem de dinheiro e promoção do chamado jogo responsável.

Essas medidas são importantes. Uma empresa autorizada está sujeita a fiscalização, tributação, obrigações de pagamento, regras de publicidade e sanções administrativas. Em uma plataforma ilegal, o apostador pode não receber o prêmio, ter os dados pessoais utilizados de maneira fraudulenta, ser vítima de algoritmos manipulados ou financiar involuntariamente redes relacionadas à lavagem de dinheiro e a outros crimes.

Mas existe um erro perigoso quando a sociedade passa a interpretar a expressão “bet legalizada” como sinônimo de “bet segura”. A plataforma pode ser legal, tecnicamente regular e, ainda assim, contribuir para perdas financeiras graves. A autorização estatal significa que a empresa pode explorar aquela atividade dentro de determinadas regras. Não significa que a atividade deixou de produzir riscos.

O lucro das operadoras continua dependendo, fundamentalmente, da diferença entre o dinheiro apostado e o valor devolvido em prêmios. Em outras palavras, alguns indivíduos podem ganhar, mas o conjunto dos apostadores precisa perder para que o negócio permaneça lucrativo.

O tamanho do mercado e o cuidado necessário com os números

Um estudo do Banco Central identificou que, entre janeiro e agosto de 2024, aproximadamente 24 milhões de pessoas fizeram ao menos uma transferência via Pix para empresas relacionadas a jogos e apostas. Os valores brutos transferidos variaram entre R$ 18 bilhões e R$ 21 bilhões por mês, com média próxima de R$ 20,8 bilhões. O Banco Central estimou que aproximadamente 15% do volume apostado permanecia com as empresas, enquanto o restante retornava aos jogadores na forma de prêmios.

É necessário compreender corretamente esse dado. Os R$ 20,8 bilhões mensais representavam transferências brutas, e não necessariamente perdas definitivas. Uma pessoa poderia depositar R$ 100, receber algum prêmio, reutilizar esse valor e gerar várias movimentações dentro do mesmo período. O dado não deve ser apresentado como se todo o dinheiro tivesse sido perdido pelas famílias.

Ainda assim, a estimativa de retenção de 15% representaria bilhões de reais retirados mensalmente dos apostadores. Além disso, os valores médios escondem diferenças importantes. Uma pessoa pode perder R$ 100 sem comprometer seu padrão de vida. Para outra, os mesmos R$ 100 podem representar alimentação, transporte, gás de cozinha, medicamentos ou parte do aluguel.

Dados do primeiro semestre de 2025 apresentados pelo Tribunal de Contas da União ajudam a mostrar a dimensão do mercado já regulamentado. Nesse período, 17,7 milhões de pessoas apostaram em plataformas autorizadas, com gasto efetivo médio estimado em R$ 164 mensais por apostador. A receita bruta das empresas — diferença entre o valor apostado e os prêmios pagos — alcançou R$ 17,4 bilhões no semestre.

O mercado ilegal, por sua vez, permanece gigantesco. Auditoria divulgada pelo TCU em maio de 2026 estimou que operadores não autorizados respondiam por algo entre 41% e 51% do volume total das apostas, movimentando até R$ 40 bilhões anuais. O Tribunal identificou falhas de coordenação, limitações no monitoramento de novos domínios e dificuldades para bloquear rapidamente empresas irregulares.

Isso significa que o Brasil enfrenta dois problemas simultâneos. Precisa controlar os danos produzidos pelas empresas legalizadas e, ao mesmo tempo, combater um mercado ilegal que ignora praticamente todas as regras de proteção, tributação e fiscalização.

Quando a aposta encontra a vulnerabilidade

A propaganda das bets não vende apenas a possibilidade de acertar um resultado esportivo. Ela vende esperança de mobilidade econômica instantânea.

Para uma pessoa que possui renda suficiente, reserva financeira e acesso a outras formas de lazer, a aposta pode ser percebida como uma despesa eventual de entretenimento. Para quem convive com desemprego, trabalho precário, insegurança alimentar, dívidas e falta de perspectivas, a promessa de transformar poucos reais em uma quantia elevada adquire outro significado.

Nessas circunstâncias, a aposta deixa de ser apenas diversão. Pode ser interpretada como uma alternativa para pagar contas, recuperar uma perda anterior, comprar algo para os filhos ou escapar temporariamente da pobreza.

É justamente aí que aparece o caráter regressivo das apostas. O impacto não deve ser medido somente pelo valor absoluto perdido, mas pela proporção que essa perda representa na renda disponível. Quanto menor a renda, maior tende a ser o dano provocado pela mesma quantia.

A pesquisa Panorama Político 2024, do DataSenado, estimou que aproximadamente 22 milhões de brasileiros com 16 anos ou mais haviam feito apostas esportivas nos 30 dias anteriores à entrevista. Entre os apostadores, 52% declararam renda familiar de até dois salários-mínimos. O levantamento também indicou que 58% não possuíam dívidas em atraso por mais de 90 dias, o que significa, por diferença, que uma parcela expressiva, próxima de 42%, já convivia com esse tipo de inadimplência.

Esses números não provam que todas essas dívidas tenham sido causadas pelas apostas. Demonstram, contudo, que as bets estão presentes em uma população que já enfrenta fragilidade financeira. Quando uma atividade de alto risco se expande dentro de um ambiente marcado por renda limitada, crédito caro e inadimplência, o potencial de agravamento das dificuldades aumenta.

Evidências internacionais caminham na mesma direção. Estudo econômico sobre a legalização das apostas esportivas on-line nos Estados Unidos encontrou redução das economias familiares e aumento de dívidas em cartão, diminuição do crédito disponível e maior frequência de uso do cheque especial entre famílias financeiramente vulneráveis. Os resultados não podem ser transportados automaticamente para o Brasil, mas ajudam a compreender os mecanismos pelos quais a aposta pode aprofundar a instabilidade financeira.

O caso dos beneficiários de programas sociais

O dado mais alarmante do estudo do Banco Central foi a identificação de aproximadamente 5 milhões de pessoas pertencentes a famílias beneficiárias do Bolsa Família que enviaram R$ 3 bilhões por Pix às empresas de apostas somente em agosto de 2024. A mediana transferida por pessoa foi de R$ 100. Entre essas pessoas, cerca de 4 milhões eram responsáveis familiares e enviaram aproximadamente R$ 2 bilhões.

Novamente, trata-se de transferências brutas, e não de uma medição exata das perdas definitivas. Mesmo com essa ressalva, o número revela que as apostas alcançaram profundamente famílias cuja renda deveria estar prioritariamente associada à segurança alimentar e às necessidades básicas.

A resposta pública a esse problema exige equilíbrio. Beneficiários de programas sociais não devem ser tratados como cidadãos incapazes, nem transformados em alvo de vigilância humilhante. A pobreza não elimina a autonomia individual. Por outro lado, o Estado não pode ignorar que recursos destinados à proteção contra a fome estejam circulando em um mercado que lucra com perdas recorrentes.

O governo criou uma base de pessoas impedidas de apostar, com consulta obrigatória pelas operadoras autorizadas, envolvendo beneficiários do Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada. A implementação dessas restrições passou a ser discutida no Supremo Tribunal Federal, que manteve a proibição de novos cadastros de beneficiários sociais, mas suspendeu parcialmente determinações relacionadas ao bloqueio e ao encerramento de determinadas contas já existentes.

O debate não pode se limitar à pergunta sobre bloquear ou não bloquear contas. É necessário compreender por que tantas famílias vulneráveis enxergam nas apostas uma possibilidade de sobrevivência ou ascensão econômica. A resposta envolve proteção social, emprego, renda, educação, saúde mental e enfrentamento da publicidade predatória.

A arquitetura da perda

As plataformas digitais não são ambientes neutros. Elas são projetadas para reduzir o tempo entre o desejo de apostar e a realização da aposta.

Depósitos instantâneos, notificações, apostas durante o jogo, possibilidade de encerrar antecipadamente uma operação, ofertas personalizadas, estatísticas em tempo real, efeitos visuais e recompensas variáveis criam uma experiência de alta estimulação. O apostador não precisa esperar o resultado da partida seguinte. Pode continuar apostando em escanteios, cartões, gols, desempenho de jogadores ou jogos virtuais que oferecem resultados a cada poucos segundos.

Essa velocidade reduz o espaço para reflexão. O dinheiro deixa de ser percebido como salário, alimentação ou aluguel e passa a aparecer como saldo digital. Quando a perda ocorre, surge a tentação de realizar uma nova aposta para recuperar o prejuízo. É o comportamento conhecido como perseguição das perdas.

O ciclo pode seguir uma sequência previsível: a pessoa começa com valores pequenos, perde, aumenta a aposta para recuperar, utiliza dinheiro reservado para outra finalidade, contrai dívidas em outras fontes, esconde as perdas da família e retorna à plataforma na esperança de resolver o problema que a própria aposta agravou.

Embora as plataformas autorizadas não possam oferecer crédito diretamente ou aceitar cartão de crédito, o apostador ainda pode recorrer a empréstimos pessoais, cheque especial, antecipação de salário, dinheiro emprestado de familiares ou outros instrumentos financeiros antes de transferir os recursos por Pix.

Portanto, impedir que a bet conceda crédito é necessário, mas não suficiente. O endividamento pode nascer fora da plataforma e terminar dentro dela.

O negócio que depende dos jogadores de maior risco

Nem todas as pessoas que apostam desenvolvem transtorno do jogo. Muitas realizam apostas ocasionais e interrompem a atividade sem consequências relevantes. Reconhecer isso é importante para evitar exageros e diagnósticos indevidos.

Entretanto, a distribuição dos prejuízos não é uniforme. Segundo a Organização Mundial da Saúde, pessoas que apostam em níveis prejudiciais respondem por aproximadamente 60% das perdas que formam a receita do setor. A OMS também alerta que as apostas podem aumentar problemas de saúde mental, risco de suicídio e pobreza, especialmente quando desviam recursos que seriam utilizados na aquisição de bens e serviços essenciais.

Esse dado revela um conflito estrutural. Uma empresa pode declarar compromisso com o “jogo responsável”, mas parte relevante de sua receita pode vir justamente das pessoas que perderam o controle sobre a atividade.

Quanto mais tempo o usuário permanece na plataforma, mais apostas realiza. Quanto mais apostas realiza, maior tende a ser a probabilidade de perda acumulada. Dessa maneira, as estratégias comerciais de engajamento podem entrar em choque com a proteção efetiva do apostador.

Não basta colocar uma mensagem discreta dizendo “jogue com responsabilidade” enquanto todo o restante da experiência digital incentiva urgência, repetição e permanência.

Endividamento não é o único dano

O prejuízo financeiro costuma ser a parte mais visível, mas raramente é a única.

O transtorno do jogo pode estar associado a ansiedade, depressão, culpa, irritabilidade, isolamento, conflitos familiares, deterioração do desempenho profissional e risco de autolesão. A pessoa pode passar a mentir sobre os valores apostados, esconder extratos, vender bens, pedir dinheiro emprestado ou negligenciar compromissos fundamentais.

O Ministério da Saúde informou que, entre janeiro de 2018 e maio de 2025, o SUS registrou 10.553 atendimentos relacionados aos códigos de jogo patológico e mania de jogo e aposta. O número de atendimentos aumentou 104% no período, com maior prevalência entre pessoas de 20 a 49 anos. O próprio Ministério reconhece que os problemas relacionados às apostas não se limitam à saúde mental individual, pois envolvem vulnerabilidades econômicas, familiares, sociais e territoriais.

O impacto também se espalha pela família. Quando o dinheiro da alimentação ou do aluguel é perdido, todos os moradores da casa são atingidos, inclusive crianças que nunca fizeram uma aposta. Companheiros e familiares podem assumir dívidas, sofrer pressão de credores, enfrentar conflitos e tentar controlar o acesso da pessoa ao dinheiro.

Nas comunidades mais pobres, o prejuízo ultrapassa o domicílio. Recursos que poderiam circular no comércio local, na compra de alimentos, em pequenos serviços e no pagamento de despesas essenciais são transferidos para grandes operadores, muitos ligados a grupos econômicos internacionais.

A aposta, portanto, não é apenas uma decisão privada quando seus efeitos recaem sobre a família, sobre a assistência social, sobre o sistema de saúde e sobre a economia do território.

Bets ilegais: o risco dentro do risco

Nas plataformas legalizadas, o apostador enfrenta um produto financeiramente arriscado, mas inserido em algum nível de controle estatal. Nas ilegais, esse risco se soma à ausência de garantias mínimas.

Operadores clandestinos podem dificultar saques, bloquear contas vencedoras, alterar regras, utilizar dados pessoais indevidamente, manipular jogos, criar novos endereços após bloqueios e operar por meio de intermediários financeiros. Também podem utilizar influenciadores, grupos de mensagens e perfis falsos para divulgar ganhos inexistentes ou encenar demonstrações de enriquecimento.

O combate não pode depender apenas do bloqueio do endereço eletrônico. Plataformas ilegais conseguem mudar de domínio rapidamente. Por isso, é necessário atingir a infraestrutura econômica que sustenta a operação: contas bancárias, instituições de pagamento, intermediadores, redes de publicidade, lojas de aplicativos, empresas de hospedagem e pessoas remuneradas para promover o serviço.

Em junho de 2026, o Decreto nº 13.033 regulamentou procedimentos para o bloqueio de contas de operadores irregulares e para impedir transações destinadas à exploração ilegal de apostas. A medida representa um avanço porque torna o fluxo financeiro parte central da fiscalização.

Enquanto uma plataforma ilegal conseguir receber dinheiro, pagar influenciadores e comprar publicidade, o simples bloqueio do site será apenas um obstáculo temporário.

A publicidade normalizou aquilo que deveria ser tratado como risco

As bets foram incorporadas ao futebol, aos programas esportivos, às transmissões, às camisas dos clubes e às redes sociais. O torcedor passou a receber estímulos antes, durante e depois das partidas. A aposta foi apresentada como extensão natural da experiência esportiva.

Essa normalização alcança crianças e adolescentes, mesmo quando o anúncio afirma ser destinado apenas a maiores de 18 anos. Marcas estampadas em uniformes, estádios, vídeos, programas e conteúdos de influenciadores também são vistas por menores.

Em julho de 2026, novas regras passaram a exigir que a publicidade apresente advertências como “Apostar pode causar dependência”, “Apostar faz você perder dinheiro” ou “Aposta não é investimento”. As mensagens devem ocupar pelo menos 10% da área do anúncio. As normas também reforçaram a proibição de publicidade direcionada a crianças e adolescentes e ampliaram a responsabilidade dos agentes envolvidos na divulgação.

É um avanço simbólico e regulatório. Contudo, advertências isoladas dificilmente neutralizam campanhas milionárias protagonizadas por celebridades, atletas e influenciadores. O alerta racional aparece por alguns segundos; a promessa emocional de vitória, pertencimento e enriquecimento é repetida durante todo o dia.

A regulamentação da publicidade precisa considerar frequência, horário, público alcançado, uso de dados pessoais, patrocínios esportivos, remuneração de influenciadores e promoção algorítmica. Não basta fiscalizar apenas o texto explícito do anúncio. É preciso avaliar a experiência publicitária completa.

A autoexclusão é importante, mas chega tarde para muitos

Em julho de 2026, o governo federal disponibilizou uma plataforma centralizada de autoexclusão. Por meio dela, uma pessoa pode bloquear simultaneamente suas contas em todos os sites autorizados, impedir novos cadastros com seu CPF e interromper o recebimento de publicidade direcionada. O bloqueio pode durar de um mês a um período indeterminado, respeitado o prazo mínimo estabelecido.

A ferramenta é necessária e pode salvar famílias de perdas ainda maiores. Sua principal limitação, entretanto, está no próprio conceito: a pessoa precisa reconhecer o problema e tomar a iniciativa de pedir o bloqueio.

No transtorno do jogo, o reconhecimento pode demorar. O usuário acredita que ainda conseguirá recuperar o dinheiro, que tem uma estratégia, que a próxima aposta será diferente ou que consegue parar quando desejar.

Além disso, a autoexclusão alcança as plataformas autorizadas, mas não elimina o acesso às ilegais. Se o mercado clandestino continuar facilmente disponível, parte das pessoas bloqueadas poderá simplesmente migrar para sites sem qualquer controle.

Por isso, a autoexclusão deve ser acompanhada de apoio em saúde mental, orientação financeira, bloqueios bancários voluntários, acompanhamento familiar e combate efetivo às plataformas ilegais.

O que precisa mudar

O enfrentamento das bets não pode ser conduzido apenas como política de arrecadação tributária. Deve ser uma política integrada de saúde pública, proteção do consumidor, segurança financeira e redução das desigualdades.

Limites obrigatórios e períodos de pausa

As plataformas deveriam adotar limites iniciais de depósito e de perda, períodos obrigatórios de pausa após sequências intensas de apostas e mecanismos de interrupção diante de alterações bruscas de comportamento.

A possibilidade de aumentar limites não deveria ser instantânea. Deveria exigir tempo de espera e nova confirmação, reduzindo decisões impulsivas.

Controle de capacidade financeira

Grandes perdas concentradas em períodos curtos deveriam acionar procedimentos adicionais de verificação. Não se trata de impedir que todo adulto faça escolhas, mas de evitar que uma empresa continue aceitando depósitos claramente incompatíveis com a realidade financeira conhecida do usuário.

Proibição de estímulos personalizados a pessoas em risco

Usuários que aumentam depósitos, apostam de madrugada, perseguem perdas ou tentam interromper a atividade não deveriam receber bônus, mensagens de retorno, atendimento VIP ou ofertas personalizadas.

O algoritmo não pode identificar a vulnerabilidade para explorá-la comercialmente.

Transparência sobre perdas reais

O apostador deve visualizar de maneira clara quanto depositou, quanto retirou e qual foi sua perda líquida acumulada. A apresentação do saldo atual, isoladamente, pode esconder o histórico de prejuízos.

Também deveria existir um extrato consolidado nacional que reunisse a atividade do mesmo CPF em todas as operadoras autorizadas.

Dados públicos e fiscalização independente

As empresas devem divulgar informações padronizadas sobre número de apostadores ativos, distribuição das perdas, concentração da receita, autoexclusões, contas bloqueadas, reclamações, publicidade e encaminhamentos para atendimento.

Esses dados precisam ser auditáveis e disponibilizados de maneira que universidades, órgãos públicos e organizações sociais possam avaliar os impactos reais do mercado.

Restrições mais fortes à publicidade

Aposta não deveria ser apresentada como investimento, trabalho, fonte de renda ou solução financeira. A utilização de atletas, celebridades e influenciadores precisa ser rigidamente controlada, principalmente quando a audiência incluir jovens.

Também é necessário limitar a intensidade da publicidade durante eventos esportivos. Um torcedor não deveria ser submetido continuamente a estímulos para apostar enquanto assiste a uma partida.

Responsabilização da cadeia ilegal

Instituições financeiras, plataformas digitais, redes de anúncios, influenciadores e intermediários que facilitem conscientemente a atuação de operadores ilegais devem estar sujeitos a sanções efetivas.

O combate precisa ser tecnológico, financeiro e permanente, e não apenas baseado em denúncias e bloqueios manuais.

Atendimento integrado

O tratamento não pode ficar restrito ao consultório. A pessoa pode precisar simultaneamente de cuidado em saúde mental, reorganização financeira, renegociação de dívidas, proteção contra violência, apoio familiar e reconstrução dos vínculos comunitários.

UBS, CAPS, CRAS, serviços de defesa do consumidor, Defensoria Pública e organizações da sociedade civil devem possuir fluxos de encaminhamento e equipes capacitadas para reconhecer sinais relacionados ao jogo problemático.

Educação sobre probabilidade e manipulação digital

A educação financeira tradicional não é suficiente. É preciso explicar como funcionam as probabilidades, a vantagem matemática da casa, as apostas combinadas, os sistemas de recompensa variável e os recursos digitais utilizados para estimular permanência e impulsividade.

A pessoa precisa compreender não apenas como administrar o dinheiro, mas como a plataforma tenta influenciar seu comportamento.

Não se deve responsabilizar apenas o apostador

É confortável atribuir todo o problema à falta de disciplina individual. Essa interpretação absolve as empresas, a publicidade, os influenciadores, os clubes patrocinados, os intermediários financeiros e o próprio Estado.

O apostador possui responsabilidade por suas escolhas, mas realiza essas escolhas dentro de um ambiente construído para estimular repetição, urgência e expectativa de ganho. Quando uma indústria reúne dados sobre cada clique, cada depósito, cada horário e cada reação do usuário, não é razoável tratar a relação como se existisse igualdade completa entre as partes.

Também não se deve transformar a pessoa endividada em alvo de vergonha. A culpa e o isolamento podem atrasar a busca por ajuda e aumentar a perseguição das perdas.

A resposta precisa combinar responsabilidade individual com responsabilidade empresarial, regulatória e social.

A questão fundamental

O debate sobre as bets não deve ser reduzido à oposição entre proibir tudo ou permitir tudo.

A proibição absoluta pode empurrar ainda mais consumidores para o mercado clandestino. A liberalização excessiva, por outro lado, permite que a arrecadação tributária e os patrocínios esportivos sejam utilizados para normalizar um produto capaz de aprofundar dívidas, sofrimento psíquico e insegurança alimentar.

A regulamentação deve partir de uma prioridade clara: a proteção da população precisa valer mais do que o crescimento do mercado.

A pergunta central não é quanto o Estado consegue arrecadar com as apostas. É quanto sofrimento social está disposto a tolerar para manter essa arrecadação.

Quando milhões de pessoas com baixa renda passam a enxergar a aposta como uma possibilidade de melhorar de vida, o problema já não pertence apenas ao campo do entretenimento. Ele revela uma sociedade na qual o trabalho, a renda e as políticas públicas não estão conseguindo oferecer perspectivas suficientes.

As bets não criaram a desigualdade brasileira. Mas aprenderam a lucrar com ela.

E, enquanto a promessa de enriquecimento instantâneo continuar chegando mais facilmente ao celular das pessoas do que oportunidades reais de segurança econômica, a conta das apostas continuará sendo paga principalmente por quem menos pode perder.

Orientação de cuidado: pessoas que estejam enfrentando perda de controle, dívidas ou sofrimento relacionado às apostas podem procurar uma Unidade Básica de Saúde ou um Centro de Atenção Psicossocial. O SUS também disponibiliza orientação e avaliação inicial por meio da iniciativa “Não Aposte Sua Saúde” no Meu SUS Digital.

Dados e normas atualizados até julho de 2026.

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